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Agentes de IA: o que muda quando a inteligência sai do navegador e entra na sua máquina

POR
Jefferson Magalhães

Terça-feira, fim de tarde. Eu estava esperando para ser atendido, com uns quarenta minutos livres pela frente e o meu computador ligado em casa, a quilômetros dali. Abri o Slack no celular, pedi para o meu assistente executar uma tarefa e fui esperando. Ele executou. Não me devolveu um texto bonito para eu copiar e colar quando chegasse. Ele rodou a tarefa, na minha máquina, enquanto eu estava em uma sala de espera.

É essa a diferença entre um agente e um chat.

Eu sou professor na Preditiva há cinco anos. Entrei como analista de dados, passei um tempo na coordenação e hoje sou coordenador de engenharia de dados em uma outra empresa, o iFood. Nesses anos muita coisa mudou, mas nada mudou tanto quanto o que aconteceu depois que a IA chegou no dia a dia de quem trabalha com dados. E a ferramenta que mais mexeu com a minha rotina não é um modelo. É a casca em volta dele.

O modelo é parte do todo, não o todo

Quando alguém me pergunta a diferença entre o Hermes e o ChatGPT, a resposta curta é essa: o ChatGPT é um modelo, com uma interface web por cima. O Hermes é uma harness. Um agente.

Harness é a estrutura que você constrói em volta do modelo. É a montagem de contexto, o loop do agente, os métodos de validação, os guard rails, as ferramentas que ele pode acionar. O modelo é o cérebro genérico, já treinado, que funciona prevendo o texto mais provável. Ele é uma etapa. Não é o conjunto da obra.

Eu insisto nisso porque vejo muita gente escolhendo ferramenta pelo modelo. Qual é o melhor, qual é o pior, quem soltou a versão nova. Na minha experiência, o que separa um assistente que você usa uma semana e abandona de um que vira parte do seu trabalho não é o modelo. É o que está montado em volta dele.

Eu uso um modelo da DeepSeek como padrão, o mais barato da linha deles. Tenho também modelos da OpenAI e da Moonshot configurados, e troco conforme a tarefa. Os modelos chineses, em geral, entregam um custo-benefício muito bom para o tipo de uso que eu faço. Mas se você trocar o meu modelo pelo seu, a ferramenta continua funcionando. Se você tirar a harness, não sobra nada além de uma conversa.

Uma dica de mentalidade, e essa vale para tudo: sempre testem. O que vale para mim não necessariamente vale para você.

A memória é o que transforma a ferramenta em parceiro

O grande diferencial do Hermes, para mim, é a memória persistente. Ele lembra das suas preferências. Ao longo das semanas, ele se ajusta ao que você costuma pedir e ao seu formato de interação.

Minha esposa usa muito o ChatGPT, e conforme ela foi usando, o chat foi virando um assistente pessoal para ela. Funciona. Mas quando eu penso em programar, em gerenciar a minha rotina, em organizar o meu próprio aprendizado, a coisa muda de escala. Um chat te dá uma sessão. Um agente com memória persistida te dá um histórico que vai se acumulando e um conjunto de processos que ficam salvos.

É a diferença entre explicar do zero toda vez e corrigir uma vez para nunca mais repetir.

Skills: o seu processo virando algo que o agente repete sozinho

Se eu pudesse dar uma única dica depois da instalação, seria esta: crie skills.

Skill é o seu processo escrito. É aquilo que você faz de forma repetida, documentado em um passo a passo que o agente consegue seguir. O formato é simples: um arquivo com nome da skill, uma descrição do que ela faz e as instruções. Você salva em uma pasta do projeto e o agente passa a acionar aquilo quando o assunto aparece.

Existe um monte de skills prontas circulando por aí. Uma que eu recomendo é a de grilling, que transforma o agente em entrevistador: ele vai te fazendo perguntas até refinar a ideia de um projeto. Para quem está começando a estruturar alguma coisa, vale muito a pena.

Mas o valor de verdade está nas skills que você escreve. Pense assim: você está estudando análise de dados, seguindo um método, fazendo cada etapa na mão. A pergunta não é mais como executar aquele passo a passo. A pergunta é como transformar aquele passo a passo em algo que você replica continuamente. Uma skill para conduzir uma análise seguindo as boas práticas que você aprendeu. Uma skill para rodar um teste A/B na sequência certa. Você escreve uma vez e o processo passa a existir fora da sua cabeça.

É aqui que a conversa sobre IA deixa de ser sobre escrever o pedido certo para o modelo e passa a ser sobre construir o método que ele executa.

MCP e os gateways: onde o agente ganha braços

Uma skill diz ao agente o que fazer. O MCP diz por onde ele faz.

O MCP funciona como porta de entrada para outras aplicações. No trabalho, eu uso MCP como entrada para o GitHub, para o Gmail, para o pacote Google inteiro e para o Slack. O agente passa a interagir com essas ferramentas diretamente. Combinar o agente com MCPs é o que multiplica o que você consegue fazer, e quem quiser entender melhor o protocolo por trás disso pode começar pelo artigo sobre o que é MCP e por que todo mundo está falando disso.

Do outro lado estão os gateways, que são os canais por onde você conversa com ele. Slack, e-mail, Telegram, WhatsApp. Foi assim que eu consegui pedir uma tarefa do celular naquela sala de espera: o meu computador estava ligado em casa, funcionando como servidor, e o Slack era a porta.

Vale o aviso: enquanto ele está rodando localmente, a máquina precisa ficar ligada. Se isso for um problema, nada impede você de contratar uma máquina na nuvem e hospedar o assistente lá.

A instalação não é bicho de sete cabeças (mas também não é mágica)

Eu uso Windows, e em uma máquina antiga. O primeiro passo, então, é o WSL, que é uma máquina virtual rodando Linux dentro do Windows.

Por que rodar Linux dentro do Windows? Porque no universo de desenvolvimento o Linux e o Mac têm um padrão muito mais bem estabelecido. Você consegue trabalhar no Windows puro, tem instalação para isso e ela funciona. Mas no longo prazo você vai esbarrar em mais atrito. O WSL foi justamente a forma que a Microsoft encontrou de estimular desenvolvedores a continuarem no Windows.

Feito isso, o resto é o caminho padrão: atualizar o sistema, instalar as dependências, rodar o script de instalação, configurar o provedor e colar a sua chave de API. Depois você escolhe o modelo, ativa as skills e as ferramentas que quiser, e está pronto.

E aqui eu preciso ser honesto com você, porque na live não foi liso. Rodei o comando que o próprio agente me sugeriu e ele falhou. Colei o erro de volta para ele, que identificou as dependências que faltavam. Instalei, rodei de novo, funcionou. Mais adiante a instalação travou de vez em uma das distribuições e eu tive que cancelar e seguir por outro caminho.

Repare no que aconteceu ali: eu usei o Hermes para instalar o Hermes. O agente foi a documentação, o suporte e o depurador do próprio processo. Isso não é um detalhe pitoresco, é exatamente o modo de trabalho que a ferramenta propõe. Você para de executar comandos que decorou e passa a supervisionar um processo que outra coisa executa.

Tem um custo, e eu não vou esconder. A ferramenta é a casca. Você precisa de um modelo por trás, e isso significa contratar uma API. Eu contratei as minhas com dinheiro do bolso, fora do trabalho, e considero um investimento que se paga em produtividade. Comece com uma verba pequena, escolha um modelo barato e fique de olho no consumo.

O passo que quase ninguém dá

Instalar a ferramenta e configurar a chave é o mínimo. Criar skills é o passo que separa quem experimentou de quem incorporou.

Mas existe um degrau acima, e é para ele que eu olho agora. Não basta ter um processo e ir refinando. A pergunta é como você valida esse processo, e como você entrega ao agente o mecanismo para ele se autovalidar. Escrever a skill é ensinar o caminho. Definir a validação é ensinar a reconhecer quando o caminho deu errado.

Todo esse universo está mudando rápido, e é fácil se perder escolhendo qual modelo de linguagem é o melhor da semana. Não é aí que está o jogo.

Modelos vão continuar trocando de nome e de preço. O que fica é o método que você escreveu.

Jefferson Magalhães
Engenheiro Mecânico pela Universidade Federal de Uberlândia com MBA em Big Data aplicado ao Marketing pela ESPM. Possui experiência análise de dados nos setores de experiência do cliente, inteligência de mercado, marketing e vendas. Atualmente é coordenador de dados no iFood.
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